Rede Ciclável na zona norte da Alameda dos Oceanos

Apelamos a todos os interessados a participarem no dia 18 de Maio, às 18:00, na Sessão Pública de Esclarecimento sobre a melhoria das condições de Mobilidade e Segurança e Implementação da Rede Ciclável, a decorrer no Auditório da Escola Vasco da Gama.
 

A zona norte do Parque das Nações é servida por duas vias rodoviárias paralelas, claramente sobredimensionadas: a Avenida Dom João II e a Alameda dos Oceanos, distando entre si apenas 150 metros. Se analisarmos as imagens de satélite obtidas através do Google Maps, a primeira constatação a que chegamos é de que o espaço dedicado aos veículos motorizados, através destas duas vias apenas, ocupa uma vasta área do espaço público do território. Se somarmos as vias dedicadas a circulação e estacionamento, chegamos ao incrível número de 20 faixas (14 vias de rodagem e 6 de estacionamento). 20 “faixas” pensadas apenas na circulação automóvel, onde 99% das pessoas que querem se deslocar de bicicleta não se sentem seguras para o fazer.

Estamos perante um caso extremo de “Arrogância de Espaço”, um termo cunhado pela empresa dinamarquesa “Copenhagenize”, para rotular espaços públicos onde reina o monopólio do carro, sem deixar espaço a outras alternativas, mais eficientes, de mobilidade.

Ao contrário das ruas residenciais, a Alameda dos Oceanos tem um perfil que permite velocidades onde só a segregação funcionará para responder à procura crescente do uso da bicicleta como meio de transporte.

Porquê continuar a rede ciclável pela Alameda dos Oceanos?

  • A Alameda dos Oceanos não é uma via de atravessamento. Caso contrário seria utilizada por milhares de veículos motorizados que entram por Sacavém e se dirigem para o centro de Lisboa, criando um ambiente rodoviário pesado, poluído e ruidoso, que abriria uma brecha no coração desta freguesia.  Para isso existem outras vias (Av. Infante D. Henrique e Segunda Circular).  O seu eixo central, uma via empedrada com velocidade máxima de 20 kmh, de acesso limitado ao tráfego motorizado, com diversos equipamentos de lazer, empresas e serviços públicos, liga os extremos norte e sul do Parque das Nações. Em 2017 finalmente foi colocada uma ciclovia decente, que infelizmente ainda termina em 2 rotundas, sem continuidade para os extremos norte e sul. É preciso dar continuidade a estes 1.5 kms de ciclovia, para que um dia, em conjunto com outras intervenções, possamos dizer que existe uma rede ciclável.
  • O objectivo não é servir a utilização para lazer, mas sim para deslocações diárias, que se pretendem ser seguras, rápidas, confortáveis, contínuas, prioritárias e ligar os principais destinos dentro do bairro. As bicicletas citadinas e utilitárias, não vêm equipadas com pneus largos e suspensão, como as bicicletas desportivas de “BTT” ou os automóveis, tornando insuportável uma utilização diária em pisos que não sejam asfaltados ou betuminados. Também não se incentiva a utilização da bicicleta, obrigando as pessoas a optarem por percursos que as desviem dos seus destinos. Ao contrário dum veículo motorizado, as bicicletas são propulsionadas pelo próprio esforço, pelo que percorrer mais umas centenas de metros aos zigue-zagues, num piso que obriga a gastar o dobro da energia devido às irregularidades, não conquista adeptos e é considerada uma má prática a evitar no planeamento duma rede ciclável. Não me choca que algumas pessoas achem que a melhor opção é colocar a rede ciclável junto ao rio. É um erro natural derivado duma utilização em modo de lazer, ao fim-de-semana, sem pressas e sem destino. Quando vou passear de bicicleta com os meus filhos num feriado, à procura de zonas de lazer, tenho necessidades e uma percepção muito diferentes de quando me desloco com eles diariamente entre os extremos norte e sul do Parque das Nações, para deslocações casa/escola, casa/actividades, casa/comércio, casa/trabalho. Não podemos utilizar a nossa experiência “lúdica de fim-de-semana” para emitir opiniões sobre uma rede ciclável de uso utilitário diário, cujas necessidades e finalidades são muito diferentes.
  • Pela Alameda dos Oceanos, demoramos metade do tempo a percorrer os 5 kms de uma ponta à outra do Parque das Nações, que demoraríamos se fossemos junto ao rio. E durante a semana, a levar as crianças à escola ou em compromissos profissionais, não temos tempo para andar a brincar aos passeios.
  • Fazem parte dos objectivos dos governos e das cidades, através dos compromissos assumidos internacionalmente para combater as alterações climáticas, reduzir o tráfego automóvel, o que implica necessariamente criar alternativas de transporte mais eficientes e amigas das pessoas e do planeta. Nesse campo, a bicicleta tem sido, um pouco por todo o mundo, umas das principais ferramentas para atingir estes objectivos. A Alameda dos Oceanos, já tem uma capacidade muito superior ao volume actual de tráfego, mas onde é extremamente desconfortável para 99% dos potenciais utilizadores de bicicleta partilhar a estrada com veículos motorizados a circular em velocidades excessivas. Uma via onde só a segregação vai dar oportunidade a todos aqueles que gostariam de usar a bicicleta diariamente, mas não o fazem por receio, incluindo crianças, idosos e menos experientes ou iniciantes. Nas cidades onde se investe em infra-estruturas para a mobilidade em bicicleta, ao mesmo tempo aplicam-se restrições que desincentivam o uso do automóvel, através de sentidos únicos/proibidos que impossibilitam o atravessamento dos centros urbanos, obrigando os veículos motorizados a fazerem percursos maiores.
  • O sucesso das Bicicletas Partilhas de Lisboa vai depender da existência duma rede ciclável que sirva os destinos do dia-a-dia. Neste momento os 1,5 kms da ciclovia do eixo central da Alameda dos Oceanos não ligam a nada e se não houver continuidade, a sua utilização vai ficar muito aquém dos objectivos.

Se as bicicletas podem andar na estrada, porquê criar uma rede ciclável?

Esta é outra das perguntas feitas por um elemento com ambições partidárias na nossa freguesia e que coloca em causa a necessidade duma rede ciclável. A resposta é na realidade muito simples. As bicicletas podem andar na estrada, mas 99% das pessoas não se vão sentir motivados a usar a bicicleta sem ciclovias. Se queremos daqui a uns anos ter 10% a 20% das deslocações urbanas em bicicleta (o que retiraria filas e filas de kms e kms de carros da cidade, com benefícios ambientais, económicos, de saúde e sociais), então só lá vamos com ciclovias separadas dos carros, onde qualquer pessoa – crianças, idosos, iniciantes, etc. – se sinta seguro a circular, complementada com ruas residenciais de pouco trânsito e velocidades reduzidas, onde já seja praticável partilhar a estrada com veículos motorizados, com um nível de risco reduzido.

Resumindo

Existe um punhado de pessoas com uma agenda política contrária à criação de uma rede ciclável de utilização diária, que agitam hostes nas redes sociais e espalham desinformação com imagens seleccionadas e comentários desadequados da realidade. Nomeadamente, pessoas que não são utilizadores da bicicleta como meio de transporte, logo, desconhecem as necessidades do público para que as ciclovias se destinam.

Procurámos com este artigo responder às dúvidas com uma argumentação equilibrada e razoável.

A discussão da necessidade duma rede ciclável já foi respondida, com sucessivas vitórias nos orçamentos participativos dos últimos 10 anos. Já passámos dessa fase. Agora está na altura de construir uma verdadeira rede ciclável, sem os erros do passado, cuja Alameda dos Oceanos é apenas uma pequena parte. Uma rede que irá envolver toda a freguesia, que ligue às freguesias vizinhas de Sacavém, Portela-Moscavide, Olivais, Marvila e que seja complementada por uma oferta ampla de estacionamento adequado. Porque quando formos no dia 18 de Maio, às 18h, ao Auditório da Escola Vasco da Gama, para participar na Sessão Pública de Esclarecimento sobre a melhoria das condições de mobilidade e segurança e implementação da rede ciclável, provavelmente vamos ter dificuldade em encontrar um lugar para prender a bicicleta, se o único estacionamento que existe estiver cheio de bicicletas dos alunos, porque estão impedidos de estacionar dentro da escola, como nos outros estabelecimentos de ensino do mesmo agrupamento.

 

Gonçalo Peres

4 pensamentos em “Rede Ciclável na zona norte da Alameda dos Oceanos”

  1. Ora bem, temos um artigo redigido por alguém que reside no Parque das Nações, local onde um simples apartamento atinge 1 milhão de euros e ainda bem que pode porque a maior parte dos cidadãos nacionais não pode e por isso tem de residir onde o seu orçamento o permite, a 30, 40, 50 e mais Km de distância. Infelizmente a empresa onde trabalha continua no mesmo sítio, Parque das Nações, para onde tem de se deslocar, tal como muitos outros. Ora esta é a razão da existência de avenidas para automóveis, porque simplesmente é impraticável fazer 50 km de bicicleta, 2x por dia. Se o parque expo fosse exclusivamente residencial até concordaria com a exposição atrás, mas não o é, e por isso há que conceder condições para que quem lá trabalha também lá consiga chegar. Transportes públicos? Não são maus de facto, mas depende de onde se vem. Não existem ligações de TPs entre a Expo e a zona Ocidental de Lisboa. (Amadora, Oeiras, etc.). Por isso não se pode simplesmente aplicar “desincentivos” aos automóveis como se fossem uns mauzões a precisar de castigo antes de se criarem alternativas credíveis.

    A simples expansão ou criação de uma carreira de autocarros demora 1 ano de estudos mais outro tanto para implementar e sabemos que a zona norte do parque se encontra muito mal servida de TPs.

    A Alameda dos Oceanos poderia de facto contemplar uma ciiclovia em toda a sua extensão mas a afirmação de que existe sobre dimensionamento de avenidas é falsa, e ainda bem que são avenidas, pois se não o fossem seriam apenas mais edifícios.

    Também discordo da conspiração anti bicicletas que pretende fomentar. Tal é apenas fruto da imaginação e revela apenas algum fundamentalismo.

    Quanto às vias de “atravessamento”, são cada vez menos. A Infante D. Henrique está a ficar saturada de camiões pesados para o terminal fluvial de Sta Apolónia ( mas quem é que coloca um terminal de contentores dentro de uma cidade ???). A 2ª circular continua na mesma. A rede de metro expande-se apenas para dentro da cidade para servir becos. A linhas de eléctrico continuam estagnadas. Só o prolongamento do 15 requer um estudo “altamente complexo” de rentabilidade.

    1. Os bairros têm de ser desenhados e concebidos a providenciar qualidade de vida aos residentes e aos comerciantes, um local humano para os residentes, onde as crianças possam brincar e os adultos possam conviver; e não uma malha de autoestradas para que porca javarda burguesia motorizada possa morar no cu de judas e trabalhar no cara**** mais velho. Você não faz a mínima ideia do que é uma cidade e para que serve.

  2. Alguém que mora a mais de 30 kms do local de trabalho e vem de carro todos os dias, gasta centenas de euros por mês, que compensaria repensar as suas opções de vida e as consequências para os outros: poluição do ar, ruído, insegurança rodoviária, recursos financeiros e de espaço necessários para alimentar esse padrão de vida, sedentarismo, importação de combustíveis, problemas de saúde derivados do excesso de poluição, etc.. Não estou a dizer que tem de mudar de vida, pois isso é uma decisão sua, mas apenas para compreender que tem de aceitar as consequências das suas escolhas e aceitar que as cidades não podem continuar reféns desse paradigma, que está a mudar em todo o mundo.
    A Alameda dos Oceanos é uma via de distribuição local (de acordo com o PDM) e tem de ser repensada como tal. Uma boa parte do seu tráfego, entra pela “rotunda da Ford” e sai junto à “rotunda da BP”, tráfego esse que tem de ser desincentivado e desviado para que o troço norte da Alameda dos Oceanos ser usufruída por todos.
    Uma vez que o Parque das Nações dispões duma estação de comboios e de metro, muitas pessoas poderão deixar o carro fora da cidade e entrar por essa via. Claro que é mais cómodo para si levar o carro até à porta do trabalho, mas é mau para todos os outros.

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